*escrevendo depois porque o telefone já está em fase de obsolescência programada, então perdi o texto*
Hoje de manhã fui à Padoca Vegan pra tomar "café da manhã" (acordei tarde, mas ainda era de manhã). Desta vez experimentei o bauru e tomei chá mate com limão.
Mas não é sobre isso que eu quero escrever. Mas sobre a grande maioria dos canais veganos de comunicação focam mais em comida do que em especismo.
(Por falar em canais de comunicação vegana, recomendo que sigam o Veganagente no Instagram e no Twitter, leiam os artigos do blog Veganagente e se for possível adquiram seus livros, que podem ser adquiridos em formato digital e físico. Esses livros ajudam muito quem está se iniciando no Veganismo e pra quem já é vegano mas quer aumentar sua bagagem de conhecimento. E apoiem deixando comentários positivos - não parece, mas dá uma força enorme.)
Lógico que existem vários canais veganos que não tratam apenas de comida, mas na minha percepção (sou um simples usuário de internet, não um pesquisador acadêmico) existe muito mais aqueles que só tratam de comida, quando não tratam apenas de culinária.
É bom dizer sempre: Veganismo não é culinária, não é hábito alimentar. E também é sempre bom dizer que a definição de Veganismo é evitar NA MEDIDA DO POSSÍVEL E PRATICÁVEL todas as formas de exploração e sofrimento animal, seja para que fins for (lembrando que animais não são usados apenas na indústria alimentícia, mas são também usados como cobaias de laboratório, animais de carga, seu couro é usado pra fazer vestimentas, etc). É uma propositura ética e política (política por combater o especismo, que é o preconceito contra animais não-humanos, considerando-os moralmente inferiores).
Mas por quê se fala tanto de comida no mundo vegan?
Acredito que seja porque a comida é o aspecto mais óbvio da exploração animal, e os argumentos são sempre sobre como a "dieta vegana" é deficiente de nutrientes, como o cérebro humano só cresceu porque nossos antepassados comeram carne, e às vezes alguns "argumentos" mais "cordiais" e "bem-educados" "completamente livres" de preconceito antivegano. Logo, como é o aspecto vegano mais atacado, faz sentido que seja o mais defendido.
Uma dificuldade ao se dizer para as pessoas deixar de consumir alimentos de origem animal é que comida nunca é "só comida" (exceto quando a pessoa tá fazendo um argumento antivegano: aí é tudo "é só comida", "cada um come o que quer", etc.). A comida pode ter significados especiais, podemos ter relações afetivas com a comida. Relações difíceis de jogar fora. Por exemplo, quando eu era criança, muitas vezes meu pai levava a família para comer hambúrguer no McDonald's, Bob's, etc, e na maioria das vezes eram momentos felizes (reforçados pelo fato de que minha infância não foi lá muito feliz - talvez daí venha meu gosto por hamburgueres. Quer dizer, além da praticidade para comer). Então quando eu ficava especialmente triste ou cansado, eu ia comer hambúrguer (isso foi um enorme problema quando abriram um Burger King quase do lado do meu trabalho, num momento em que eu tinha abandonado o veganismo temporariamente). Ou o churrasco que meu pai fazia pra família no fim de semana. Ou aquele mês que tinha sobrado um dinheiro e todos fomos à churrascaria. Melhor ficar por aqui, que o texto já tá grande e eu ainda não cheguei onde quero.
Daí chegam os "veganos", intransigentes, autoritários, fundamentslistas, querendo IMPOR a sua dieta, negando a existência e a cultura dos outros, querendo criminalizar minorias.
Opa, pera lá. Veganos intransigentes? Fundamentslistas? Como, se o próprio Veganismo luta contra uma forma de opressão? Se a própria definição de Veganismo já diz que é tudo na base "do possível e do praticável", e não da proibição absoluta? Tem algo de muito estranho aí.
Pois bem. Vamos falar sobre "veganismo tóxico". Não conheço todas as vertentes e epistemologias do veganismo (sou relativamente novato e ainda estou aprofundando meu repertório), mas estou falando do "veganismo liberal". Também conhecido como "veganismo nutella", "veganismo capitalista", "veganismo de mercado", "veganismo estratégico". Tem vários nomes pra escolher. Eu chamo de "isso aí não é veganismo porcaria nenhuma".
O que seria o "veganismo estratégico"? É o "veganismo" que todo mundo conhece. Aquele que é elitista, porque "comida vegana é muito cara" (só se enxerga a comida vegana gourmetizada ou industrializada) e por isso discrimina as minorias que não podem levar esse estilo de vida. Discrimina porque os "veganos" apontam o dedo e chamam essas minorias de cruéis, de inimigos dos animais, quando a realidade delas realmente não lhes dá alternativas. É o veganismo racista que quer criminalizar religiões de matriz africana por "sacrificar cães e gatos", mas não tem a mesma postura com as religiões cristãs que sacrificam peru no natal numa escala muito maior (e perceba: "veganos" praticando racismo E especismo). E por quê ele é chamado de "estratégico"? Porque ele foca no mercado, nas empresas. Ele considera que quanto mais "produtos veganos" houverem no mercado, maiores as chances de pessoas se converterem ao veganismo.
Mas que veganismo? Um que só contempla pessoas de maior poder aquisitivo (elitista). Que apoia as mesmas empresas que praricam exploração animal desenfreada ("porque temos que boicotar produtos, não empresas" - só que se a burguesia pára de vender carne em um lugar, arranja outro lugar para vender essa carne). Que não se importa realmente com o meio ambiente pois se trata apenas de um "hábito alimentar".
É extremamente difícil explicar para uma pessoa vítima desse "veganismo" que essa não é a real essência do Veganismo. Porque pra eles não interessa se um vegan chega e explica tudo isso. Eles "sentiram na pele", "não é achismo, é experiência própria" (como se esses muitos "veganos liberais" represesntassem a totalidade dos vegsnos do mundo). Essas pessoas tem dificuldade também em entender que o Veganismo não é um blocão unificado e padronizado de ideologias.
O que fazer neste caso?
Abandonar o nome "Veganismo" e trocar por "Libertação Animal"?
Acho pouco efetivo. O nome e o conceito pode ser facilmente cooptado pelo Capitalismo e se tornar uma "Libertação Animal liberal".
Continuar tentando explicar a diferença entre "veganismo raiz" e "veganismo nutella"? É extremamente difícil, já que o "veganismo nutella" já está enraizado na cabeça das pessoas. Mas talvez valha a pena o esforço. (Aproveito para fazer propaganda do 3º livro do Veganagente, o Manual de Sobrevivência para Veganos e Vegetarianos. Ele ajuda MUITO nessas horas).
Qual minha opinião quanto a isso: veganos "raiz" deveriam se associar a outras pautas. Fazer a defesa do Veganismo por si só é muito difícil por causa do estrago feito pelo "veganismo de mercado", mas talvez a coisa mude de figura por exemplo se estiver associado a outras pautas. Por exemplo, mostrar movimentos como o MAV - Movimento Afro Vegano (@movimentoafrovegano). Vai pelo menos causar um estranhamento: "opa, como assim? O veganismo é racista" (lembrando aqui que para as pessoas os "veganos nutella" representam a totalidade do Veganismo). Esse estranhamento já vai abrir uma brecha para poder explicar qual a relevância do Veganismo.
Um ponto a se levantar é: não existe libertação animal sem libertação humana, assim como não existe libertação humana sem libertação animal. E libertação humana e animal necessariamente precisa levar em conta a relação metabólica dis seres vivos dentro da natureza.
Então, de repente seria uma boa o Veganismo passar a considerar o Ecossocialismo. O título de "Ecossocialismo vegano" (parece redundante, mas não é. Fiquei sabendo que tem muito ecossocialista antivegano) ou de "Veganismo ecossocialista" traz uma série de conceitos pra junto da libertação animal (ao mesmo tempo que traz todo o arcabouço do Veganismo pra dentro do Ecossocialismo). Se você conhece bem o Veganismo e conhece bem o Ecossocialismo, não tem como não chegar à conclusão de que eles se complementam e se complementam.

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