Estava fazendo um curso sobre Revolução Digital. Não pude deixar de pensar, a todo instante, que as afirmações eram bizarras. Outra pessoa que realizou o curso discordou, disse que era condizente com a realidade.
Sim, muito condizente com a realidade. De um homem branco de classe média.
Não sei exatamente como organizar este texto, então vou separar por tópicos, conforme for lembrando.
1 – “Todos tem acesso à tecnologia”
Apesar de sim, muita gente tem acesso à internet mais que antes, isso vem a um custo. Muitos se endividam para poder comprar um celular minimamente utilizável para os padrões de hoje (isto é, que além de telefonar, tenha apps como whatsapp, redes sociais e joguinhos. Muitos nem sabem que celular serve para telefonar!). Mesmo assim, segundo este link que encontrei, quase metade da população não possui acesso à internet. Muita gente nunca pisou num shopping center a vida toda, nunca viu metrô, nunca viu o mar. Pessoas de classe média, como eu, podem achar essas coisas corriqueiras e comuns, mas não é a realidade de todos. Muitos não tem acesso sequer a saneamento básico.2 – “A informação está acessível para todos, muitas vezes de graça”
A informação não está acessível para todos, mas é certo que cada vez mais pessoas tem acesso à informação. É menos verdade ainda quando dizemos que ela é “de graça”. No mundo capitalista, “não existe almoço grátis”. A gente sempre paga um preço por tudo, pois tudo é mercadoria. E a questão não é apenas se as pessoas tem acesso à informação ou se ela é de graça: a qualidade dessa “informação” também é importante. Notícias falsas podem ter consequências nefastas, como o caso da mulher que foi espancada até a morte acharem que praticava magia negra. Podemos também citar o caso Caixa 2 do Bolsonaro. Não se trata apenas de política (ou no caso, Ultrapolítica) ou eleições, mas relações intrapessoais também são afetadas. Um antigo amigo de infância deixou de falar comigo ao saber que votei no Guilherme Boulos - muito provavelmente por causa de boatos/afirmações sobre ele ser um terrorista. Ou casos mais corriqueiros, como os sequestros falsos por telefone, as “promoções” em que a pessoa tem que fazer depósitos pra retirar o prêmio, entre tantos outros.3 – Trabalhos ‘repetitivos’, ‘braçais’, serão extintos. As pessoas que serão bem-sucedidas serão aquelas que se dedicarem a aprender novos conhecimentos.
Na teoria, é bonitinho. Na prática, quanta gente não tem acesso à educação formal? Essas pessoas serão extintas? Como irão sobreviver se não tiverem condições sequer de terem um subemprego? Isso sem entrar nas questões da Reforma Trabalhista e do emprego informal.4 – A responsabilidade do “mindset” digital não é responsabilidade da alta diretoria, mas de todos os colaboradores
Isso é só um jeito bonitinho da empresa empurrar a responsabilidade para os trabalhadores. Querem que os funcionários ajam como “donos da empresa” e que se sintam “empoderados” em um ambiente de hierarquia “horizontalizada”, mas não é assim que funciona. Empresas, de modo geral, não são escritórios de co-working, e possuem hierarquia vertical muito bem marcada. E o funcionário, por mais que queira enfatizar a experiência do cliente e não o processo, muitas vezes não tem o respaldo da empresa – seja tecnológico, seja normativo.Os trabalhadores não são “colaboradores”. “Co-Laborar” quer dizer “trabalhar junto”. Funcionários, principalmente os de baixo escalão, tem pouco ou nenhum poder de decisão. Eles não “trabalham com” – eles “trabalham para”.
Incentivar os trabalhadores a “agir como donos do negócio” também leva a outras consequências, como a perda da consciência de classe. É importante lembrar que o empregador sempre irá querer pagar um salário menor pelo mesmo (ou por mais) trabalho – o que chamam “mais valor” ou “mais valia”. Não apenas salário, mas também direitos trabalhistas.
5 – Isso (agir como “dono do negócio”) irá nos incentivar a ter conhecimento em várias atividades, e não se estagnar
Isso já é uma realidade – e isso é decorrente da exigência cada vez maior de empregados que trabalhem por três (ou mais). Porém, a economia do empregador vem com um custo para o trabalhador.Em primeira lugar, o empregador economiza ao empregar um trabalhador para fazer o serviço de vários, pois esse trabalhador não irá receber um salário maior por isso. O excesso de trabalho também leva a estresse tanto físico quanto emocional – o trabalhador fica sobrecarregado. Nesses momentos muito se fala sobre ter “resiliência”. Ser resiliente é sim importante, mas isso, assim como o “agir como dono do negócio”, também é um jeito bonito da empresa jogar a responsabilidade de lidar com a sobrecarga para o trabalhador, isentando-se de qualquer responsabilidade.
Além disso, “quem sabe de tudo, não sabe nada”. O cérebro humano só pode se concentrar em um número limitado de tarefas para fazer ao mesmo tempo – e mesmo que possua a capacidade de se adaptar ao “multitarefa”, o risco de erros é muito maior do que se fazemos uma tarefa de cada vez. Ser multitarefa, de um modo geral, é prejudicial.
Da mesma forma que não é bom se fechar em sua área de conhecimento, não é bom não se especializar em nada. Qualquer um que tenha jogado RPG (mesmo os “eletrônicos”) sabe que é bem mais benéfico ter um grupo de pessoas, cada uma com sua especialidade e que (aí sim) colaboram entre si do que um “lobo solitário” que não se especializa em nada – e portanto não faz nada com tanta eficiência.
Acho que não lembro muito mais coisas, tenho a impressão de que eu tinha mais coisas para comentar. Mas não consigo deixar de pensar que a “revolução tecnológica” e a “revolução digital” são coisas de homem branco não-pobre (porque não dá pra chamar classe média de “rica”, penso). E se realmente muitos dos empregos de hoje se extinguirem, se as novas gerações irão trabalhar em empregos “que não existiam antes”, lembrem-se que não existiam apps de motorista particular. Esses “novos empregos” podem não ser bem a maravilha que se imagina nessa “revolução digital”.
Se não for levado em conta o fator humano (que não seja meramente a “experiência do cliente”), essa “revolução digital” não servirá pra nada além de estratificar ainda mais a sociedade, aumentando a desigualdade. Os melhores empregos ficarão restritos a aqueles que podem pagar pelo conhecimento, e ao restante da população restará apenas sobreviver das migalhas e do sonho meritocrata de que “com esforço, a gente vence na vida”.
“Vencer na vida” também é uma expressão problemática, mas vai ficar para uma outra oportunidade, quem sabe.

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