Então.
Redes sociais são uma merda.
Mas pra gente como eu, que tem dificuldade em interagir com outras pessoas, às vezes é o único nível confortável de interação social.
Eu deixei escrito pela metade um texto sobre super heróis. A ideia é que crescemos sonhando com os superpoderes, não com o senso de justiça. Sonhamos em ter poderes pra aplicar nossa justiça particular, sem levar em conta as outras pessoas. Quando perdemos o sonho de ter poderes, sonhamos com o surgimento de um herói pra salvar o mundo em nosso lugar. Quando deixamos de acreditar em heróis, desdenhamos quem acredita em "salvar o mundo".
Os heróis formam "ligas da justiça", pra demonstrar que o trabalho em equipe é benéfico - e muitas vezes, a única solução. Os personagens japoneses também trazem mensagens sobre o trabalho em equipe. Não somos seres isolados da sociedade. Dependemos uns dos outros. Sonhamos apenas com os poderes. Sonhamos em aplicar nossa própria "justiça". Ignoramos que outras pessoas são seres sencientes com suas próprias histórias de vida.
Quando eu era criança, desejava superpoderes. Não queria mais sofrer na mão dos bullyies. Eles eram os vilões. Conforme fui crescendo, fui me isolando porque eu via tudo e todos como inimigos. Eu estava sozinho no mundo. Isto não é (apenas) um desabafo. Me acompanhe até o final do textão. O que estou falando possui um propósito.
A partir de algum ponto de minha vida, passei a me ver como alguém desimportante e descartável. Por isso não me importava os problemas do mundo. Não me importava com a política do país. Eu não tinha nenhum poder pra salvar o mundo. Estava apenas esperando a vida passar. Estudava e trabalhava não porque tinha um propósito na vida, mas por pressão dos meus pais. Lógico que sempre gostei de jogos e desenhos animados, quadrinhos e mangás. Eram minha fuga do mundo. Quando estamos na pele do herói do desenho ou do video game, deixamos de ser nós mesmos por um breve instante, e o ódio que sentimos de nós mesmos se torna menos insuportável.
Quando idolatramos uma figura política como "aquele que vai mudar tudo isso daí", estamos desejando o super herói que vai salvar o mundo em nosso lugar. Quando desejamos armas em nossas mãos, estamos desejando o poder para aplicar nossa própria justiça. O "bandido" não é uma pessoa. É uma criatura sem vida própria, um NPC sem história pessoal cuja função é ser mau e ser eliminado. Somos finalmente o herói do jogo.
Em algum outro momento da minha vida, decidi parar de me importar. Eu era apegado à minha autopiedade. Decidi me desapegar de tudo. Não à tôa sinto uma proximidade específica com o Zen. Estaria mentindo se eu dissesse que sou uma pessoa desapegada, mas aprendi, com o tempo, a dar menos importância ao ódio que sinto por mim mesmo. Nada importa. Tudo é uma ilusão. A vida não vale a pena a não ser que você dê significado a ela. "Ikigai".
O heroísmo consiste, basicamente, em salvar o mundo. É o que aprendemos nos quadrinhos, nos jogos e no cinema. No fim das contas, o herói possui função social. "Salvar o mundo" consiste em salvar vidas. Vidas são importantes. Não à tôa, grande parte dos super-heróis possuem um código de ética que envolve "não matar". "Não matarás" também é um dos mandamentos de Jové. O heroísmo, no fim das contas, não é sobre ter superpoderes. É sobre tomar atitudes éticas, como "não matar".
Não sei em que momento da minha vida passei a me interessar por política. Talvez tenha sido influência do Laércio, me levando ao sindicato. Me chamando para participar do movimento. Não posso dizer que faço muito, mas procuro aprender o tanto quanto possível.
Mas se "salvar o mundo" é uma questão de atitude e não de superpoderes, por quê não conseguimos salvar o mundo?
Lembra quando falei das equipes de super heróis? Do trabalho em equipe?
Não estamos isolados no mundo. Às vezes, o trabalho em equipe é a única solução. O heroísmo consiste em atitudes éticas.
Só é possível salvar o mundo coletivamente.
Não existe o herói que irá salvar o mundo por nós.
Não existe "fazer justiça com as próprias mãos".
No fim, acreditar no herói que irá salvar o mundo por nós, acreditar que com uma arma na mão iremos fazer justiça... No fim, isso não passa de uma fuga da realidade. Não queremos tomar a atitude ética. Não queremos a responsabilidade. E também não queremos sofrer as consequências de fazer, a todo custo, o que acreditamos ser o correto.
Só podemos salvar o mundo coletivamente. Por isso o individualismo não faz o menor sentido.
Eu cresci vendo todas as pessoas como vilões que queriam apenas me fazer mal. Foi com muito esforço que consegui baixar a guarda para outras pessoas, deixar que se aproximassem. Porque um dia decidi que não iria mais me importar se eu me machucasse. Mas não se muda uma personalidade assim tão fácil: eu ainda não sou bom em me relacionar com as pessoas, e salvo algumas exceções, conversar é uma tarefa dificílima e extremamente desconfortável pra mim. Eu ainda não entendo como as pessoas se relacionam e sobre o que conversam, e talvez eu nunca saiba como faz. E à medida em que fui recuperando a vontade de viver, também surgiu a vontade de salvar o mundo. Não porque aprendi que era o certo, mas porque cheguei à conclusão de que era o certo a fazer. Que é a atitude mais ética.
E, por tudo isso, me incomoda profundamente pessoas que querem terceirizar essa responsabilidade, que depende de todos nós. Por isso me incomoda profundamente as pessoas que fazem pouco das questões políticas. Que igualam os que dão soluções fáceis a aqueles que tentam trazer consciência política.
Mais que tudo, me incomoda profundamente que aqueles que possuem facilidade em se relacionar socialmente estejam cagando pra vida pública, se achando intelectualmente e moralmente superiores ao se absterem.
Então. Redes sociais são uma merda. Mas dadas as minhas inabilidades sociais, é a forma que possuo de dizer o que penso de forma mais clara. E o que posso fazer é torcer para que minhas palavras alcancem aqueles que, diferente de mim, tenham a capacidade de se mobilizar fora do ambiente virtual.
É isso.

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