05/05/2018.
Tive a oportunidade de acompanhar um pequeno grupo de
pessoas para entregar doações ao grupo da MLSM (Movimento de Luta Social por
Moradia), que ocupava o prédio que desabou no Largo Paissandu.
Não irei entrar em detalhes sobre esse grupo (pois não pedi
permissão para isso, e penso que seria desrespeitoso), mas acho interessante
notar que a pessoa que teve a iniciativa de angariar as doações e leva-las
pessoalmente tem posicionamento político de direita. Não é, entretanto, sobre
política que eu gostaria de falar. Mas sobre Deus.
Enquanto estávamos na ocupação, uma das pessoas comentou que
ali “faltava Deus”. Que as pessoas não queriam saber de Deus, que no dia
anterior havia uma caixa de som com músicas de louvor, que fora levada embora
por alguém (de fora da ocupação – por isso, a entrada e saída de pessoas estava
sendo controlada com mais rigor). Ela nos contou que a música ajudava as
pessoas a se acalmarem, se sentirem fortes e unidas. Também nos contou que lera
a Bíblia no dia anterior (dois Salmos cujos números não me recordo) e que isso
a acalmara. Resolvemos então sair para comprar uma caixa de som e um pen drive
com músicas de louvor, enquanto outra parte de nosso grupo permanecia por lá
pra puxar uma oração.
Não podemos simplesmente pressupor que todos acreditam no
Deus cristão/evangélico. No entanto, mesmo sendo uma pessoa que não crê em Deus
(ou em nenhuma religião), que naquele momento Deus era importante. Neste
momento, muitas pessoas estão sensibilizadas com a tragédia pela qual aquelas
pessoas passaram. Eles estão recebendo ajuda na forma de vestimentas, comida, itens
de higiene pessoal. Estão recebendo atenção da mídia e das pessoas (seja para prestar
solidariedade, seja para demoniza-los). Eu sei bem que, com o passar do tempo,
as pessoas irão deixar de sentir empatia por eles. No momento de comoção, todos
querem ajudar. Mas, com o passar do tempo, passam a ser um estorvo. As pessoas
voltaram a virar as costas e ignora-los, ou mesmo passarão a chama-los de
criminosos. Mas isso é assunto pra outro momento.
Dizia uma música que “alimento pra cabeça nunca vai matar afome de ninguém”.
Isso não quer dizer que não seja importante alimentar a mente. Podemos fazer o
mesmo paralelo em relação à alma, ao espírito. Precisamos de alimento
espiritual para mantermos a esperança, para ter forças para seguir lutando. Pra
não desabar como um prédio em chamas, por não aguentar seu próprio peso. E é
isso o que o louvor a Deus significava naquele momento: esperança. Sem
esperança, sem perspectivas de um futuro melhor, não vemos motivos pelos quais
podemos seguir lutando ou mesmo pelo quê viver.
Saí de lá com muito o que pensar. Vemos tanta gente usando
Deus para justificar atos inescrupulosos e desumanos que esquecemos do aspecto
positivo de Deus e das religiões como um todo.

Excelente texto!
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